Demissões em massa aterrorizam funcionários da Enel

Adenis Freitas Peres, 55 anos, 23 deles como funcionário da atual Enel, antiga Celg. Demitido há pouco mais de um ano de sua aposentadoria. “Eu saí sem saber o motivo. Estava de férias. No primeiro dia em que retornei, eram mais ou menos 9h e abastecia o veículo para fazer leitura de demanda, quando recebi o telefonema que dizia que eu estava fora dos planos da empresa.”

Adenis não ficou surpreso, pois o parceiro de trabalho havia sido mandado embora no dia anterior e vários outros antes dele. O ex-funcionário hoje realiza serviços autônomos e lamenta ter chegado tão próximo da aposentadoria sem poder concluir os planos.

Ele diz que se sentiu constrangido e culpado, sem saber qual erro cometeu para receber uma punição injustificada pela Enel. “O que eu poderia ter feito? Eu estava de férias e no primeiro dia de volta recebi essa notícia.” O ex-funcionário conta que, após a privatização da Celg, a atmosfera laboral mudou. “É um ambiente de terror, infelizmente. A gente trabalhava de cabeça quente, sem saber o dia de amanhã, se ia estar empregado ou não. A gente se sentia acuado.”

Segundo o diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas do Estado de Goiás (Stiueg), João Maria, o caso de Adenis não é isolado. “A Enel tem sido muito competente em demitir pessoas, profissionais que cumprem o sacerdócio do serviço público. Não estamos falando de qualquer serviço, mas de energia. Profissionais com dez, 15, 20 anos na empresa, entre os mais qualificados do mercado”, destacou. “O Stiueg fatalmente se tornou um ponto de apoio desses profissionais e um ambiente muito triste”, desabafou.

Desamparo

Visivelmente emocionado ao contar histórias de funcionários demitidos da companhia de energia, o sindicalista disse que hoje as famílias se amparam no Stiueg. “Aqui vieram também suas esposas e seus filhos. Passamos dias muito difíceis, sem condições de ter uma resposta imediata. Diante de tamanha atrocidade, o Judiciário consegue ser lento. Não é à toa. Estamos falando de uma empresa multinacional.”

De acordo com João Maria, diversos trabalhadores adoeceram após receberem de forma abrupta a notícia da demissão. “O sindicato é de fato o único que tem cobrado, que tem colocado na mídia e denunciado o que tem acontecido em Goiás em nível nacional, no órgão de proteção aos trabalhadores, na Organização Internacional do Trabalho (OIT) e até mesmo nos sindicatos internacionais”, explicou. “Temos uma ação coletiva no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) pedindo a reintegração desses trabalhadores, também temos buscado suporte no Ministério Público do Trabalho contra a prática constatada de assédio moral dentro da empresa”, informou o sindicalista.

Já ultrapassam mil demissões pela Enel, segundo o Stiueg. “Os trabalhadores dessa empresa não conseguem mais olhar para a frente e planejar suas vidas, estão em processo de adoecimento gradativo”, declarou João. “As demissões continuam acontecendo diariamente.” O diretor do sindicato disse, ainda, que desde que a Enel assumiu, mortes e acidentes com sequelas também aumentaram. “Quatro funcionários morreram em acidentes de moto durante o trabalho, muitos outros se acidentaram com queimaduras e mutilações”, relatou. “É isso que essa empresa ofereceu ao Estado de Goiás desde que ela assumiu. Perseguição aos efetivos, alto grau de terceirização, ameaças de demissões constantes e sobrecarga de trabalho.”

Resposta

A assessoria da Enel afirmou não ter havido demissões. “Realizamos, em 2017, programas de aposentadoria incentivada e desligamento voluntário, voltados a colaboradores interessados em se desligar espontaneamente da companhia”, informou. De acordo com a companhia, as mil adesões foram espontâneas e receberam benefícios adicionais aos previstos em lei. A empresa também disse desconhecer e repudiar práticas de assédio moral, mas concluiu que é natural realizar reformas no quadro de funcionários.

Privatização não melhora serviço de energia

Desde fevereiro de 2017, a tomada da Celg D pela italiana Enel foi selada com um montante pago de R$ 2.187 bilhões, acordo conquistado por meio de leilão. Antes de ser privatizada, a empresa pertencia à Eletrobras e ao governo de Goiás, via Celgpar, atendia 2,8 milhões de unidades consumidoras e empregava 6.447 colaboradores, de acordo com o Relatório de Responsabilidade Socioambiental e Econômico-Financeiro de 2016.

Desde março deste ano, a antiga Celg passou a ser chamada de Enel Distribuição e redefiniu sua identidade visual. As mudanças foram além. Após desestatização, Goiás liderou o ranking dos Estados brasileiros com a maior variação tarifária de energia do País, segundo dados do Índice de Preços do Consumidor (IPCA), em pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2018, o reajuste chegou a 13,73% a mais que no ano anterior; em todo o Brasil, a média não passou de 1,46%.

Enquanto a assessoria de comunicação da Enel anuncia investimentos em modernização de tecnologias e aumento de cobertura no fornecimento de energia no Estado, a empresa tem superado em valores de tarifas, nos índices de reclamações e, de acordo com João Maria, diretor do Stiueg, bate recordes de apagão em Goiás. “Para eles, como uma empresa capitalista, só interessa o lucro. A qualidade dos serviços e o bem-estar dos funcionários não importa em nada.”

Diante das críticas, a assessoria rebateu que: “A Enel Distribuição Goiás esclarece que, entre as 54 concessionárias de energia do País, a tarifa do Estado é a 19ª menor, conforme ranking da Agência Nacional de Energia Elétrica, e também está abaixo da média da tarifa nacional.” Ainda afirmou que o aumento tarifário se deve a fatores externos, como custo de compra e transmissão de energia, além de impostos.  (Fernanda Kalaoun)

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